Entrevista – Revista Dafesa da Fé

O EVANGELISMO E O CHOQUE CULTURAL

Entrevista com Jairo de Oliveira

Por Elvis Brassaroto Aleixo

 

Pastor Jairo de Oliveira pertence à Convenção Batista Brasileira, é membro da 2a Igreja Batista da Taquara (RJ) e missionário da MIAF (Missão para o Interior da África). Formado em Teologia pelo Instituto Bíblico Peniel, da Missão Novas Tribos do Brasil, fez o curso de Lingüística e Missiologia da Missão ALEM, a fim de se preparar para o campo. Sua experiência transcultural deu início ao seu ministério, aos 17 anos, ocasião em que, pela primeira vez, viajou para a África como missionário e, aos 19, foi ordenado pastor na África do Sul. Desde então, vem realizando palestras e conferências por todo o país. É o autor de duas obras altamente recomendáveis, publicadas pela Editora Abba Press: Missões: a razão da existência da Igreja e Missões e culturas: o que igreja e missionários precisam saber antes de partir para o campo. Articulista da seção “Choque cultural”, do caderno missionário de Defesa da Fé, seus textos, em geral, têm ajudado pastores, comitês de missões e pessoas interessadas no assunto. Atualmente, ele e sua esposa, Vânia Rangel, estão trabalhando com refugiados sudaneses no Quênia, no Leste africano. E foi de lá que nos concedeu, por e-mail, a entrevista que segue.

Defesa da Fé – O que é o choque cultural e como se manifesta?

Jairo de Oliveira – O choque cultural é comum a todo missionário e pode ser considerado uma fase que se estabelece nos primeiros meses ou anos do ministério transcultural. Com maior ou menor intensidade, todo missionário ou estrangeiro passa por esse estágio.

Enfrentamos o processo de choque cultural quando nos confrontamos com uma realidade étnica distinta. No contato com uma nova sociedade, padrões diferentes nos são apresentados, o que nos causa muita estranheza e provoca grande nível de tensão e comportamentos emocionalmente instáveis.

Durante o período de choque cultural, o missionário enfrenta diversos conflitos e se torna extremamente vulnerável. Os principais sentimentos que permeiam essa situação vão desde a rejeição da cultura local à vontade intensa de abandonar o campo e retornar prematuramente ao país de origem. Esse conflito entre modelos culturais é bastante previsível e superável. Contudo, é bom que o missionário saiba disso antes de sair do seu país ou cultura de origem.

Defesa da Fé – Que fatores envolvem o processo de contextualização do evangelho?

Jairo – Contextualizar o evangelho é apresentá-lo levando em conta a cultura receptora, a fim de que a mensagem seja compreendida e se aplique de forma relevante ao cotidiano do grupo em contato. A contextualização pode ser entendida também pela maneira como o evangelho é aplicado em determinado contexto e em resposta aos desafios de sua realidade. É importante destacar que a contextualização não é perda de identidade do missionário ou do evangelho. Pelo contrário, é a tarefa de manejar bem a Palavra da verdade, tornando-a clara e compreensiva e apresentando-a de forma adequada às particularidades culturais e lingüísticas de uma sociedade.

Elucidando o conceito, podemos citar o ministério de Jesus que, ao apresentar o evangelho, utilizou linguagem e cenário bastante familiares aos seus ouvintes. Estando à beira de um poço, falou de água a uma mulher com um cântaro vazio. No mar, falou de pesca aos pescadores. E, num contexto pastoril, apresentou-se como o Bom Pastor, que dá a vida por suas ovelhas.

Defesa da Fé – Quais são os principais e mais difíceis obstáculos que um missionário transcultural tem de enfrentar?

Jairo – Na realização da tarefa de proclamar o evangelho além de nossas fronteiras culturais, existem muitos obstáculos que devem ser ultrapassados. Em geral, a adaptação cultural e o aprendizado de uma nova língua estão entre os principais obstáculos. Considerando primeiramente a adaptação, essa fase de ajustes a um novo contexto cultural é o processo pelo qual nosso corpo, mente e emoções sofrem para se ajustarem às condições do novo universo. Desafio que exigirá grandes doses de atenção, renúncia e flexibilidade. Já o aprendizado de uma nova língua, é sempre algo demorado e emocionalmente desgastante, sobretudo para o missionário brasileiro, pelo fato de sermos um povo monolíngüe. A dificuldade para entender o que se fala, o empenho para pensar na nova língua e as decepções quando não somos compreendidos podem nos deixar exaustos. É imprescindível reconhecer os limites pessoais e, ao mesmo tempo, ser perseverante e dedicado ao estudo da língua.

Defesa da Fé – Existe cultura inteiramente boa ou má? Até que ponto podemos adequar as diversas culturas aos padrões bíblicos?

Jairo – Seria uma atitude de etnocentrismo supor que há culturas totalmente más, assim como demasiado romantismo achar que há culturas que possuem perfeita harmonia. O Pacto de Lausanne, de 1974, que tem influenciado o movimento missionário em todo o mundo, sustenta que em todas as culturas há aspectos positivos e negativos. Esse posicionamento não é defendido apenas pela teologia e pela missiologia, mas também pela antropologia cultural, que concorda que em todas as culturas há manifestações de luzes e sombras.

É ponto pacífico que cada povo tem suas particularidades e forma própria de enxergar o mundo. A Igreja não pode desconsiderar esse fato, antes, deve utilizá-lo na viabilização de seu trabalho de comunicação do evangelho.

Trabalhando com um grupo originário do Sudão, percebi um aspecto cultural interessante: a grande admiração pelo gado. Diante dessa descoberta, disse-lhes que o pecado é tão ofensivo à santidade de Deus que, na Antiga Aliança, uma vaca poderia ser oferecida em sacrifício pelo pecado do povo. Esse tipo de relação é extremamente significativa para a comunidade e aponta para o preço precioso do sacrifício de Cristo no Calvário.

Defesa da Fé – Em geral, quais são os ensinamentos bíblicos mais difíceis de serem absorvidos pela cultura africana?

Jairo – Devido à pluralidade cultural que encontramos no continente africano, é difícil falar da cultura africana sem generalizar. Entretanto, um aspecto que gostaria de destacar, presente em, aproximadamente, 28 países africanos, é a questão da mutilação genital. A mutilação está intimamente relacionada com crenças religiosas que ensinam que os espíritos se ofendem quando uma mulher dá à luz sem ter sido mutilada e, por causa disso, punirão a família caso a criança seja mantida viva.

A prática é sustentada inclusive no ambiente eclesiástico. O problema é resultado de sincretismo religioso e dificuldades no estabelecimento de padrões de autoridade. Em algumas concepções, as práticas culturais estão acima da Bíblia e compõem o alicerce em que o conhecimento bíblico deve ser construído. Entretanto, a proposta divina é exatamente o oposto, a Bíblia é o alicerce e o crivo para que se rejeite ou permita que os aspectos da cultura sejam assimilados ou rejeitados.

Defesa da Fé – Em que medida o racismo interfere na recepção do evangelho por parte do povo ou tribo evangelizado?

Jairo – Em países como a África do Sul, o racismo ainda influencia significativamente a sociedade e a dinâmica de vida da igreja. Exemplificando, um missionário negro que tente alcançar uma comunidade de predominância branca pode ser facilmente alvo de rejeição ou descrédito. Portanto, um missionário brasileiro negro na África pode ter vantagens por uma questão de identificação física, mas desvantagens em ambientes de racismo e tribalismo, onde é mais tolerável a influência de um branco do que a de outro negro que não seja da mesma etnia.

Tensões dessa natureza podem ser evidenciadas em países como o Sudão, por exemplo. Para se ter uma idéia da problemática, segundo a ONU a principal crise humanitária dos nossos dias acontece na região de Darfur, Oeste do Sudão, onde um grupo de etnias negras sofre, desde o início de 2003, uma tentativa de “limpeza étnica” por parte de grupos rivais. Mais de 200 mil pessoas já morreram na região e o número de mortos e refugiados é crescente a cada dia.

Defesa da Fé – Deixe um conselho aos leitores que se sentem chamados para o evangelismo transcultural.

Jairo – Venham! Antes de partirem, aproveitem as oportunidades de preparo e peçam sabedoria e graça a Deus no processo de treinamento, que pode ser tornar algo complexo se não for direcionado à realidade do ministério que irão desenvolver.

Quando chegarem ao campo, sejam flexíveis, generosos, humildes e ensináveis. O perfil de um aprendiz é característica essencial na vida de um missionário e comportamento adequado no relacionamento com o povo. Reservem tempo para ouvir Deus, o povo, os colegas de ministério e os que ficaram na retaguarda. Tenham em mente que quando Deus nos leva ao campo, sua prioridade é trabalhar em nós para, então, trabalhar por meio de nós.

Sintam-se privilegiados. O campo missionário nos enriquece em muitas áreas e as adversidades servem para nos amadurecer. Como missionários, em lugar de vítimas, pela graça, somos bem-aventurados. O trabalho missionário, em vez de peso, é um nobre trabalho que Deus nos concede o privilégio e a honra de participar!

 

Fonte: Instituto Cristão de Pesquisas – ICP


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