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Somos todos refugiados

Em uma recente visita ao nosso grupo de refugiados, uma senhora iraquiana perguntou à minha esposa: Você também é refugiada? Por vários dias, esta pergunta se tornou objeto de reflexão para nós. No momento, estamos residindo na cidade de Columbia, EUA, onde realizamos estudos de mestrado e ministério entre refugiados sírios e iraquianos. O visto que carregamos no passaporte é de estudante. Assim, tecnicamente, não estamos aqui na condição de refugiados. Entretanto, as Escrituras nos descrevem como estrangeiros e peregrinos neste mundo (1Pedro 2.11). Ora, se estamos nesta vida de forma temporária, enquanto aguardamos a nossa morada definitiva, a conclusão que chegamos é que, num certo sentido, sim, somos todos refugiados.

O mundo enfrenta hoje uma enorme crise migratória. O relatório “Tendências Globais” do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) apresenta um quadro perturbador que a nossa geração não pode ignorar. Vivemos dias em que 65,3 milhões de pessoas se encontram forçosamente deslocadas. Infelizmente, essa situação piora a cada dia já que os problemas que causam o deslocamento dessas pessoas estão longe de serem resolvidos.

Os dados mais recentes do ACNUR mostram que em 2015 havia mais 5.8 milhões de pessoas deslocadas à força do que em 2014. A população total daqueles que tiveram que abandonar suas casas para assumir a condição de refugiados é maior do que a população inteira de alguns países: “A população global de pessoas deslocadas hoje é maior do que toda a população do Reino Unido. Se fossem um país, os deslocados seriam a vigésima primeira maior nação do mundo”. [1] As principais razões por trás dessa tragédia são: perseguição, conflito, violência generalizada ou violações de direitos humanos.

Os conflitos na Síria e no Iraque contribuem significativamente para o aumento do número de deslocados global. Até o final de 2015 havia cerca de 5 milhões de refugiados sírios em todo o mundo, um aumento de 1 milhão de pessoas no período de um ano. A grande maioria destes sírios recém-deslocados foi registrada na Turquia (946.800 indivíduos) e, como resultado, a Turquia acolheu a maior população de refugiados do mundo – cerca de 2,54 milhões de pessoas, a maioria provenientes da Síria. [2]

Três países muçulmanos estão no centro da atual crise de refugiados, já que mais de metade (54%) de todos os refugiados em todo o mundo vêm de apenas três países: a Síria (4,9 milhões), o Afeganistão (2,7 milhões) e a Somália (1,1 milhões).[3]

Os números do relatório de “Tendências Globais” apontam para uma importante implicação missiológica: a maioria das pessoas deslocadas do mundo é oriunda de nações muçulmanas onde não há liberdade religiosa assegurada. No entanto, esses indivíduos estão se movendo para diferentes nações onde a liberdade religiosa é um direito fundamental, o que lhes dá acesso à fé cristã. Basicamente, são populações de povos não alcançados tendo a primeira oportunidade de viver em contextos que lhes permitem acesso ao evangelho. Será que podemos olhar para esse cenário como uma oportunidade para realizarmos a nossa missão como Igreja?

Se não pertencemos a este mundo, porque a nossa pátria definitiva não é a terrena, mas “está nos céus” (Filipenses 3:20), temos todos os motivos para nos compadecer, socorrer e testemunhar àqueles que perderam quase tudo, mas continuam lutando pelo direito de viver.

Notas:

[1] The United Nations High Commission for Refugees, “Global Trend,” acessado em 10 de Maio, 2016, http://www.unhcr.org/576408cd7#_ga=2.260039818.1844708909.1495805181-507874958.1495805103. [Tradução livre].
[2] Agência da ONU para refugiados, “Estatísticas,” acessado em 10 de maio, 2016, http://www.acnur.org/portugues/recursos/estatisticas/.
[3] Ibid.